A surpreendente histórias dos heróis não-só-de-guerra: Emil e Xaver

Para mim foi necessário compartilhar uma história que por sorte do acaso chegou em minhas mãos. Espero que ela te intrigue e aqueça seu coração como fez com o meu. O original está em espanhol agradeço o @suckmino pela tradução. O crédito da história e fotos é do Guillem Clua.

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A história a seguir é sobre o mistério que está por trás desta lápide onde jazem dois soldados do Império Austro-Húngaro que lutaram e morreram na Primeira Guerra Mundial… E que foram enterrados juntos.

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No ponto mais alto de Sighisoara, na Romênia, fica a Igreja da Colina. Você chega a ela por escadas íngremes cobertas, uma das atrações do lugar, que você pode ver aqui em uma foto que tirei.

A imagem pode conter: atividades ao ar livreNessa maquete da cidade podemos ver o túnel de madeira que dá acesso ao templo e ao pequeno edifício anexo, uma escola secundária que ainda funciona (e será importante na história).

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Ao lado da igreja há um cemitério alemão (esta área da Transilvânia foi repovoada pelos alemães desde o século XII e seus descendentes foram enterrados lá). E é nesse lugar onde encontro o memorial das vítimas da Primeira Guerra Mundial.

Existem não mais do que 30 sepulturas dispostas simetricamente. Um túmulo para cada soldado, como este, que me chama a atenção por causa do belo nome do falecido mosqueteiro.
Mas uma das tumbas é diferente. Nela há dois corpos: os de Emil Muler e Xaver Sumer. Aqui você pode ver em detalhes.

Quando vejo a lápide, a primeira coisa que faço é pensar 🌝(como todos vocês), então volto para a igreja em busca de mais informações.

O único ser vivo próximo é a senhora que vende os ingressos do templo (que custam €1,72). Ela não fala inglês, mas entende o que quero dizer quando mostro as fotos que tirei com o celular.
É claro que não sou o primeiro para o qual a sepultura chamou atenção. Pergunto por que eles se encontraram e ela encolhe os ombros e diz apenas “prieteni”.

“Prieteni” significa “amigos”.

“Que tipo de amigos?” Pergunta a bicha romântica que habita em mim. Mas a senhora não está para conversa. Ela pega um mapa e aponta para um ponto específico: a famosa Torre do Relógio no centro da cidade.

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É claro que, se eu quiser mais respostas, preciso ir até lá. E eu imediatamente entendi o motivo. A torre medieval não é apenas a principal atração turística do lugar, mas também abriga o museu de história da cidade.
A medida que vou subindo pelo labirinto de escadas da torre, encontro quartos dedicados a diferentes períodos históricos. Um deles é dedicado à Primeira Guerra Mundial.
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Naquela sala encontro armas originais da guerra, mapas da frente oriental e fotos de personagens da época.

O destaque da sala são os Muler, uma família rica de origem alemã que se estabeleceu em Sighisoara vindos de Sibiu (município da Romênia) no final do século XIX. Os senhores Muler tiveram dois filhos: Adolf e Emil.

EMIL MULER!

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Os Mulers ficaram ricos com a indústria siderúrgica e promoveram a reconversão industrial da área. Por isso, há tantas fotos de sua família no museu. Mas eu estava interessado apenas Emil, que desde criança parecia saber que sua vida ia ser muito desastrosa.

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A única coisa que descobri sobre ele é que ele foi para a escola na colina com seu irmão mais velho. Aqui, os dois com um amigo. Emil é o da direita. A primeira coisa que eu vejo é o nome do “amigo”, mas parece ser um certo Hermann não-sei-o-quê, que não entra nessa história.

O que me chama a atenção é o fato assustador da escola de Emil estar a poucos metros do cemitério, onde seus restos mortais descansam para sempre. Quem poderia ter imaginado isso?

De fato, quem poderia imaginar que no verão de 1914 a pior guerra seria desencadeada? Dentro de algumas semanas, pai e filhos foram convocados.

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Emil não parece muito feliz. Ele teve que interromper seus estudos na Universidade de Munique para a qual ele havia sido enviado. E claro, ninguém gosta de interromper os estudos porque os impérios europeus decidiram se aniquilar.

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E o que aconteceu com ele na guerra? Não sabemos. A única coisa que diz o arquivo de sua foto é que ele foi ferido em 1915 e transferido para o hospital militar em Sighisoara, onde morreu alguns meses depois.

E nada mais. Na sala não consigo encontrar mais informações sobre Emil Muler. E o pior: nem do seu amigo Xaver Sumer. Não há traço dele.

Eu ando por todos os cômodos da Torre do Relógio, onde o museu está procurando por algo mais. Um monte de vitrine, um monte de vasos e um monte de placas, mas nenhum traço da tumba de Emil.

Eu estou em um beco sem saída com a cabeça cheia de perguntas. Quem era Xaver e que conexão ele tinha com Emil? Por que Emil não descansa com sua família, que tem um cemitério no mesmo cemitério? Por que eles descansam juntos se suas mortes são separadas por um ano?

Felizmente, o acaso teve que cruzar o meu caminho para abrir a porta que me levaria a desvendar todas essas incógnitas. Minha última esperança é o homem que vende os ingressos do museu.

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Quando eu começo a falar com ele, o céu se abre: ele fala inglês perfeitamente! Mostro-lhe a foto da sepultura e conto o que descobri sobre Emil.

homem não tem ideia do que estou falando. Ele me diz que trabalha lá, mas que ele é realmente um engenheiro aeronáutico (o que eu acho fascinante). Nós conversamos por um tempo e não demora muito para me perguntar de onde eu sou.

“De Barcelona, mas moro em Madrid”, respondo. E ele sorri: “você é catalão”. Eu digo sim, claro, e ele recomenda que eu visite o “Restaurante Bastion”. Acontece que o edifício em que se é conhecido por muito tempo como “a casa do catalão”.

A coincidência é engraçada e já é hora de comer, então aproveito e vou em direção ao “Bastião dos Carniceiros”. Eu logo encontrei o restaurante à direita ao lado (daí o seu nome).

Como sempre, desde que pisei na Romênia, peço muita comida. Eu experimento uma sopa de beterraba, um goulash transilvaniano que quase me faz perder meus sentidos, sobremesa, vinho e café.

Você deve estar se perguntando por que estou contando tudo isso e o que diabos isso tem a ver com #EmilyXaver. Agora você vai entender.

Depois de pedir a conta (tudo por 6 euros!!), falo com o garçom sobre o motivo que me levou ao restaurante. Ele me diz que costumava viver uma família que, aparentemente, tinha uma origem catalã.

Ele não sabe me dizer mais nada. Quando seus pais compraram a casa, já nos anos 90, o prédio estava quase em ruínas, embora mantivesse alguns objetos dos antigos proprietários.

 

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Na escada e no cenáculo há algumas pinturas. A maioria são pinturas a óleo sem assinatura. Telas amadoras de Sighisoara pintadas por autores anônimos. Uma deles chama minha atenção:

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É uma rua qualquer em Sighisoara, com a torre do relógio ao fundo, um pouco sombria, com uma árvore meio morta. Eu examino seus detalhes e, de repente, meu coração para.

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No canto inferior esquerdo, o pintor assinou seu nome. Primeiro, acho que meus olhos estão me enganando, mas claramente diz “X. Sunyer. ”

E de repente o túmulo do #EmilyXaver volta à minha mente. E eu visualizo o nome de Xaver. Sumer. Sumer com um pau no topo, algo que já parecia estranho para mim na primeira vez que o vi.

E eu me pergunto se esse M era originalmente um N. E se Sumer fosse realmente Suñer? E se Xaver Sumer fosse uma germanização de um nome catalão como Xavier Sunyer? Era possível ou eu estava alucinando?

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Não demoro para esclarecer minhas dúvidas. Sob a tela tenho toda a informação que eu preciso. O nome do autor… e o título do trabalho dele.

“Emil’s room”. O quarto de Emil. A casa que Xaver Sumer pintou foi a casa de Emil Muler. E no centro da tela, sua janela. Uma janela que significava tantas coisas, que ele teve que imortalizá-lo em uma tela

Eu não posso deixar de ficar emocionado. Essa foto é a prova de que o #EmilyXaver se conheceram antes da guerra. Xaver pintou em 1913, quando Emil já havia ido para a Universidade de Munique

A única coisa que está clara é que a casa está dentro da cidade medieval de Sighisoara, a julgar pela proximidade da Torre do Relógio que é vista em segundo plano

A torre tem uma planta retangular e uma das duas fachadas amplas pode ser vista na pintura. Por isso deduzo que a casa tem que estar ao norte ou ao sul dela, mais ou menos nessas áreas.

Tenho que confessar que naquele momento minha esperança de encontrar a casa era ZERO. A cidadela não é grande, mas mudou muito em um século. Será que eu vou conseguir reconhecer a casa se eu a encontrar?

fui até Hermann Oberth Square por uma escadaria e perguntei a um menino que serve mesas em um terraço. “Você reconhece esta rua?”. Ele olha para a foto, olha para mim, olha para trás e aponta com o dedo. “Lá.”

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Eu coloquei a foto e a tela juntas para que vocês possam comprovar que sim, é a casa de Emil! Ainda existe!

Minhas pernas tremem quando me aproximo da casa. Será que ainda tem moradores? Alguém da família ainda morará lá? E se assim for, alguém pode finalmente me dizer qual relacionamento#EmilyXaver tinham?

Eu estou na frente de um grande portão de madeira. Nele, uma grande placa diz TASCHLER HAUS BOUTIQUE HOTEL. Um hotel… Não é uma boa notícia, mas pelo menos o prédio não está abandonado.

A porta está fechada. Eu toco a campainha e espero um tempão até que a porta se abra. Uma mulher de uns 50 anos acena com a cabeça e me pede para entrar. “Você quer um quarto?”, ela me pergunta

Quando digo que não estou procurando por hospedagem, ela me olha com desconfiança. Naquele momento percebo que não posso dizer a verdade. O que eu direi então? Que eu sou um romântico inveterado que se tornou obcecado com duas pessoas mortas de um século atrás?

Eu decido adotar minha personalidade de Carmen Sandiego: “Eu estou fazendo um trabalho de pesquisa sobre a Primeira Guerra Mundial na área. Eles me disseram que a família Muler morava aqui, é verdade?”

A mulher diz sim. Que o prédio pertence a sua família há gerações.
ESPERE
SUA família?
Você está me dizendo que ela é descendente dos Mulers?

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Sim, amigos. O nome da senhora é Dorothea Taschler, filha de Helmut Taschler e Maria Muler, que por sua vez era filha de Adolf Muler, o irmão mais velho de Emil – nesta foto que você vai lembrar.

Naquele momento, conto-lhe sobre o túmulo, tentando não me abalar. Eu deveria ser um pesquisador frio. “Não fique fora do personagem, Guillem!!”, penso. E ela balança a cabeça: “Sim, eles foram enterrados juntos, mas eu não sei por quê

“Me contaram que Emil e Xaver eram amigos”, arrisquei. Ela acena novamente: “Sim, eles foram à escola juntos, como a maioria deles estão enterrados lá.” Outro calafrio. O instituto vem à minha cabeça. Aquele, ao lado do cemitério.

Para mim está claro que #EmilyXaver se conheceram quando eram adolescentes. Ou talvez mais cedo. E que sua amizade foi forjada nos corredores do prédio, uma amizade que foi interrompida quando Emil foi para a Universidade de Munique por volta de 1912 e Xaver ficou em Sighisoara.

É por isso que Xaver pintou a janela de Emil. Porque sentia falta dele. Mesmo um ano depois de separação dos dois, ele ainda dedicou suas pinturas a Emil.

“Só os dois estão enterrados juntos, senhora!” Dorothea pensa um pouco e acaba dizendo que não sabe o motivo. “Talvez a família de Xaver Sumer não tinha dinheiro para um túmulo próprio?” A explicação não me convence em nada.

Continuamos conversando sobre os Mulers por um longo tempo. Falamos sobre como Emil morreu, mas Adolf sobreviveu e ficou com a casa. Ela também lamentou que Emil tenha morrido solteiro e sem filhos.

Naquele momento eu aponto para a janela que está bem acima de nós: “Esse era o quarto de Emil, certo?” Ela abre os olhos arregalados. “Como você sabe?”. Mostro-lhe a foto da pintura e arrisco: “Você poderia me mostrar?”

Ela acena que sim e me deixa passar. Eu entro na velha casa de Emil quase que fazendo reverência, mas me chateia o fato de que reformaram o quarto completamente e eles está TERRIVELMENTE FEIO. Os afrescos nas paredes são de arrancar os olhos (desculpe, Dorothea).

No meu caminho para o quarto, um dos afrescos na parede me chama a atenção. É o desenho de um moleiro (Müller, em alemão, o símbolo da família de Emil). Eu definitivamente estou no lugar certo.

Eu vou para a janela que dá para onde eu acho que Xaver pintou a tela. E eu levanto a mão, como se eu fosse Emil, dizendo adeus a Xaver, que acabou de sair da minha casa com um sorriso nos lábios e se vira para me cumprimentar com um sorriso.

Eu sigo Dorothea para uma porta trancada. Atrás dela há um quarto mais austero que os outros. Eu entendo que não é destinado a hóspedes do hotel. Existem vários gabinetes, baús e móveis de diferentes estilos.

Dorothea abre um dos armários e pega uma mala, que coloca em cima de um baú. “Se você quiser, você pode examinar o seu conteúdo”, diz ela. Eu entendo imediatamente o motivo. A mala está em muito mau estado, mas ao lado do punho duas iniciais chamam a atenção.

Eu viro e olho para a mala como se fosse um tesouro, o resto de um naufrágio que as ondas fizeram chegar a meus pés em uma praia remota. O que eu encontraria dentro? As respostas que eu estava procurando estavam lá ou haveria ainda mais perguntas

Eu finalmente abro e é isso que eu encontro. Pastas, papéis e uma pequena maletinha.

Dorothea me diz para não prestar atenção nas pastas, já que elas não têm interesse para mim. Tudo o que preciso está na bolsa. E quando eu abri…

FOTOS! Dezenas de fotos de todos os tamanhos, temas e datas. Muitos instantes imortalizados em celulóide, rostos anônimos, paisagens exóticas, fotos de família… Tem de tudo!

Aparentemente aquilo está guardado há anos. A maioria foi encontrada durante a reforma do hotel. Colocaram as fotos na maleta para organizá-las um dia – mas esse dia nunca chegou.

Dorothea tem certeza de que alguma foto do começo do século que pode me interessar está lá e me convida a procurá-la. Eu olho para dentro da pasta sobrecarregada. Pode haver calmamente 200 ou 300 fotos ali! Eu posso passar horas olhando…

Dorothea sorri: “Quando você se cansar, pode descer para jantar no restaurante.” E com isso, ela sai. Uma vez sozinho, tiro todas as fotos da pasta e começo a classificá-las como posso.

Naquela noite é difícil adormecer. Eu fico muito tempo olhando a janela da cama e imaginando quantas vezes Emil Muler teria feito o mesmo, mais de cem anos atrás naquele mesmo quarto.

E eu não posso deixar de me perguntar o que diabos eu estou fazendo aqui. Eu deixei a situação sair do controle?
Eu negligenciei meu trabalho em Târgu Mures perseguindo uma miragem?
Por que preciso saber a verdade dessa história que nem vem nem vai?

Por que eu preciso tanto acreditar no amor?

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Começando, eu acho a primeira foto que me interessa. É um esquadrão do exército austro-húngaro: um grupo de jovens soldados orgulhosos em seus uniformes impecáveis. Certamente eles nem tinham disparado uma única bala ainda.

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E entre eles, com seu rosto habitual de “onde foi que eu me meti”, reconheço Emil Muler (ele é o segundo soldado de pé à direita). Eu me pergunto se algum dos outros é Xaver Sumer…

Até que encontro a segunda foto. Dois oficiais e um soldado
O nome do soldado não deixa dúvidas.

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Xaver Sumer. 1914.

As peças do quebra-cabeça começam a se encaixar.

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Por fim, conheci os dois soldados. Eu coloco suas fotos lado a lado. O olhar de ambos é pregado ao meu. E através do espaço e do tempo, parece que vejo neles um pedido comum: “Conte nossa história ou nunca iremos existir”.

Infelizmente não consigo encontrar mais fotos dele. Há mais algumas fotografias da linha de frente. Soldados anônimos afundados na lama das trincheiras, em momentos de descanso sem qualquer vestígio de felicidade, oficiais com grandes bigodes

E é graças a eles e às notas nas costas das fotos que percebo que Emil e Xaver lutaram em lugares diferentes. Xaver foi enviado para o norte, na frente da Varsóvia, enquanto Emil defendia as posições da Transilvânia contra a Sérvia

Entre 1914 e 1915, o ano em que Emil retornou a Sighisoara, os dois garotos nunca se encontraram. E toda vez que descubro algo, menos eu entendo o que aconteceu. Se eles nem sequer lutaram juntos, por que estão enterraram juntos então?

Eu tenho a sensação de que estou de volta em outro beco sem saída. Eu pensei que as fotos me dariam mais respostas, mas não foi assim. Começo a guardar as fotos e cruzo um último olhar com os dois soldados: “Me desculpe, pessoal, eu falhei com vocês.”

Mas a história deles não foi apagada, como aconteceu com milhões de outros soldados que descansam debaixo da terra em todo o continente? Não era justo que eu devesse deixá-los novamente naquele esquecimento.

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É por isso que começo a rever as fotos, uma por uma. As velhas e as novas. Todas. Eu analiso cada rosto, cada detalhe, cada momento… Até achar essa imagem dos anos 50. Dois homens na frente de um retrato

Não faço ideia de quem eles são, mas o que me impressiona não são eles, nem o homem no quadro, mas algo no fundo. Isso parece alguma coisa pra você?

Eu reconheço a pintura de Xaver instantaneamente.

E as perguntas voltam. O que esse quadro faz aí? Por que esses homens da foto têm isso? Essa pintura não esteve sempre no Restaurante Bastion, “A casa do Catalão”? Minha cabeça vai explodir

Eu desço as escadas procurando por Dorothea e segurando a foto como se ela tivesse queimado minhas mãos. Ela reconhece um deles na hora. É Hermann Balan. Ele foi prefeito de Sighisoara nos anos 50, ela me conta.

Hermann Balan? O nome não me soa estranho. Onde eu já ouvi esse nome antes? E de repente eu vejo a luz.

Hermann foi amigo de Emil no instituto. E provavelmente também foi amigo de Xaver. E caso você esteja se perguntando, sim! A família dele ainda está morando na cidade.
“Você quer que eu ligue para eles?”, Pergunta Dorothea. E eu não preciso responder. Ela já tem o celular na mão.

Eu ando pelas ruas de Sighisoara sendo guiado por Dorothea. Não falamos. A única coisa que quebra o silêncio daquela fria manhã de sábado é o crepitar dos nossos passos na neve.

Nós vamos para a praça principal da cidade. Ali vive Alina Balan, neta de Hermann Balan, que foi prefeito nos anos 50 e amigo de escola de #EmilyXaverantes da Grande Guerra.

Dorothea para em frente a uma das mansões e bate na porta. Imediatamente aparece uma mulher de sessenta anos com bochechas rosadas, parecendo que tinha saído de uma história dos Irmãos grimm
Alina e Dorothea conversam em romeno com essa cumplicidade de amigas de toda uma vida. Eu entendo algumas palavras isoladas, como “casa catalanului”, “Emil”, “Xaver”, e “prieteni”.
E “prieteni” significa “amigos”, lembram?
Alina olha para mim com um sorriso de orelha a orelha e me deixa entrar. Ela não fala uma palavra de inglês, mas isso nem é necessário. É claro que ela está feliz em me ajudar.

Nós caminhamos pelos corredores da mansão, cheios de pinturas, estátuas e imagens religiosas. Dorothea está traduzindo as explicações de sua amiga: quando seu avô voltou da guerra, ele se interessou em colecionar arte

As primeiras pinturas que obteve foram de artistas da região. E entre eles tinha uma pintura de Xaver Sumer. Por alguma razão, foi a imagem mais amada por Hermann Balan. E ali estava. Em um lugar privilegiado do salão de luxo.

Eu tinha o quadro da janela de Emil na minha frente de novo. Como era possível que houvesse duas pinturas idênticas? Eu disse a Alina que ontem vi um igual no Restaurante Bastion. Ela novamente sorri como a avó da Chapeuzinho Vermelho e diz: “Elas não são iguais”

E de fato, quando me aproximo para examiná-lo, percebo. As cores da pintura são diferentes. E na janela de Emil uma silhueta pode ser vista. E não é só isso. A data da pintura é 1916.

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1916. Três anos após a primeira pintura. Um ano depois que Emil voltou da guerra. O ano em que Emil morreu.
Não entendo mais nada. Por que voltou a pintor o quadro com Emil na janela? E Alina responde que ele não pintou apenas aquele. Ele pintou muitos mais, mas eles foram perdidos.

Alina nos convida a sentar. A história que ela está prestes a nos contar será longa. E será cheia de respostas.
De fato, #EmilyXaver se conheceram no instituto. Os dois eram amigos íntimos de Hermann Balan. Os três garotos eram inseparáveis. Mas a amizade de Emil e Xaver era especial. Assim mesmo que ela diz. Especial. E ela diz com uma ternura que eu aprecio.
Os garotos estavam prestes a terminar o ensino médio por volta de 1912 e Hermann notou que seus dois amigos estavam se distanciando dele. Ele não entendeu o motivo. Até que um dia ele descobriu o romance e contou aos seus pais. Não demorou para a história se espalhar

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Foi assim que Herr Muler decidiu enviar Emil para estudar em Munique, enquanto Xaver ficou em Sighisoara pintando sua janela vazia.

Xaver jurou a Hermann que nunca o perdoaria pelo que ele tinha feito.

Mas então aconteceu algo que ninguém esperava. No verão de 1914, Gavrilo Princip assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa em Sarajevo e eclodiu a Primeira Guerra Mundial

Hermann, Emil e Xaver foram para o front e perderam todo o contato. Até que Emil voltou ferido em 1915. Alina me disse que sua condição era delicada. Seus pulmões foram afetados pelo efeito de uma bomba de cloro. Ele estava de cama

A notícia chegou a Xaver, que ainda estava no front. Ele fez todo o possível para que eles se reencontrassem antes de Emil morrer, mas isso não aconteceu até meados de 1916.

A primeira coisa que Xaver fez quando pôs os pés em Sighisoara foi ir à casa de Emil, mas os pais dele não permitiram que eles se vissem. Nem naquele dia nem em qualquer outro. Eles também esconderam do filho que Xaver havia voltado.

E é por isso que Xaver ficou plantado debaixo da janela de Emil. Ele ia lá todos os dias e passava horas esperando que Emil tivesse forças para sair da cama, olhasse para fora e o visse.
E para passar o tempo, ele pintava a mesma coisa de novo e de novo.

Alina para de contar sua história quando percebe que estou chorando.
“Me diga que eles se encontraram. Mesmo que tenha sido apenas um dia. Diga-me que Emil sabia que Xaver não havia se esquecido dele!”
Minhas palavras soam quase como um apelo.

Ela sorri novamente, sem dizer mais nada. Se levanta e vasculha os volumes da livraria. Pega um álbum cheio de fotos e documentos. Em seguida encontra o que procura: uma carta.

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Uma carta para Emil muler.

Escrita por Xaver Sumer
Dias antes da morte de Emil

“Você quer saber o que diz?”, Pergunta Dorothea. “Eu posso traduzir para você”.

Uma carta de Xaver para Emil. Nem nos meus sonhos mais loucos imaginei encontrar tal tesouro. Não posso deixar de me perguntar por que está na posse de Alina Balan. Ela chegou ao seu destino?

Meu avô a interceptou”, explica a velha. Quando Hermann (o amigo) voltou da guerra e encontrou Xaver plantado na rua, seu coração se partiu. Ele percebeu o que havia causado por ter contado o que sabia para seus pais.

Ele tentou se desculpar, mas Xaver nem quis escutar. Eles lutaram no meio da rua e Xaver quebrou o nariz com do outro um soco

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Hermann estava ciente de que a dor em seu rosto não era nada perto do que seus velhos amigos estavam sentido. Ele tentou corrigir seu erro intercedendo por eles, indo até a casa dos Muler

Ele pediu uma última reunião entre os dois, mas eles se recusaram. E não é só isso. Mostraram a carta de Xaver que acabavam de enviar e pediram para devolvê-la a ele, de modo que ficaria claro que suas palavras nunca chegariam a Emil.

Hermann ignorou. A carta foi salva e assim que ele teve oportunidade, pediu para ver Emil. Na sala que já conhecemos, Hermann pediu desculpas a seu amigo colegial e, ao lado de sua cama, leu a carta de Xaver em um sussurro

E é nesse mesmo sussurro que Dorothea começa a traduzir as palavras de Xaver:

Querido Emil,
Seus pais não nos permitem ver um ao outro.
Recorro a esta carta para escrever o que eu nunca fui capaz de lhe dizer.
Eu quero que você saiba que eu te amo.
Sim, Emil, eu te amo.
Eles nos ensinaram que isso não era amor, mas percebi que era sim”.

“O que você e eu tivemos é o amor mais verdadeiro que já senti.
É por isso que não quero perder você sem lhe contar.

Eu te amo desde o primeiro dia em que entramos no instituto e escapamos para o cemitério para fumar um cigarro.
Eu te amo desde o dia em que você aqueceu minhas mãos com a sua respiração porque eu perdi minhas luvas.
Eu te amo desse nosso beijo no estábulo dos Sander.
Eu te amo tanto que a ideia de te ver de novo foi a única coisa que me manteve vivo nas trincheiras sérvias “.

“Seria o suficiente você me olhar nos olhos para entender.

Não precisaria palavras. Nos olharíamos e seríamos novamente crianças nos corredores do instituto, antes da morte, antes das bombas, diante dos velhos que transformaram tudo isso em ódio.
É por isso que estou debaixo da sua janela há meses, para ver você de novo, mesmo que apenas por um momento. Para o seu sorriso volta a me fazer acreditar que o nosso amor significou tudo e lançou alguma luz neste século que já nasceu morto”.

“Eu te amo e aconteça o que acontecer, eu sempre estarei com você.
Seu, Xaver”.

Quando Hermann terminou de ler a carta, os dois estavam chorando. Emil, quase sem voz, pediu que o amigo o ajudasse a se levantar.
Emil estava tão fraco que parecia que nem sequer conseguiria chegar à janela, mas conseguiu. Ele recuou as cortinas, olhou para fora e, pela primeira vez em anos de horror, seu rosto se abriu em um sorriso.
Porque lá embaixo, na rua, Xaver estava o olhando de volta. Porque o homem que ele amava tinha dito que te amo pela primeira vez e ele estava respondendo, mesmo muito fraco, com sua respiração embaçando o vidro da janela.

Xaver nunca pôde ouvir o “ich liebe dich” de Emil, mas ele sentiu nas profundezas de sua alma uma bênção. Naquele momento Emil levantou o braço em saudação… E foi assim que Xaver o pintou em sua última tela.

Naquela mesma Noire, em 12 de dezembro de 1916, Emil Muler morreu.
Ele tinha 22 anos.

O silêncio cai no quarto de Alina Balan como uma sentença. A velha o rompe com sua voz quebrada: “Pelo menos eles tiveram aquele momento. Outros nem sequer isso.”
No dia seguinte à sua morte, Emil foi enterrado no panteão da família e Xaver parou de pintar. Sabemos que ele morreu meses depois, mas o que aconteceu com ele naquela época? E o mais importante… como eles acabaram enterrados juntos?

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Alina vasculha o álbum e me mostra uma foto do túmulo de Emil em 1916. Ele foi efetivamente enterrado sozinho.

É estranho ver esse espaço vazio ao lado de seu nome. É como se Xaver estivesse destinado a ocupá-lo em outro túmulo do futuro. Pergunto onde posso encontrar essa lápide, mas a velha me diz que ela não existe mais e retoma sua história

Alina vasculha o álbum e me mostra uma foto do túmulo de Emil em 1916. Ele foi efetivamente enterrado sozinho.

Metade da cidade foi ao funeral de Emil. O pequeno Muler morreu como um herói e seria enterrado com honras. O velório aconteceu na Igreja da Colina, ao lado do instituto das crianças e do cemitério

Xaver se apresentou em meia cerimônia com uma alma quebrada. O padre interrompeu a homilia ao vê-lo entrar e todos os assistentes observaram espantados quando ele foi até o caixão para dar o último adeus ao homem que amava.

Mas Xaver não conseguiu. Herr Muler ficou na frente dele no corredor, agarrou-o pelas lapelas e o arrastou para fora. Xaver implorou com lágrimas dizendo que só queria se despedir. Em resposta, o pai de Emil o jogou no chão e o chutou várias vezes.

Hermann Balan assistia tudo de seu banco cheio de raiva e culpa, mas não se atreveu a fazer nada. Ninguém moveu um dedo.

Na rua, sangue e lágrimas derreteram a neve sob o corpo de Xaver Sumer. O menino se levantou e jurou que nunca mais voltaria a Sighisoara

A cidade estava cheia de lembranças que o perseguiam e vizinhos que olhavam para ele com desdém. Com Emil morto, ele sentiu que este não era mais seu lugar e que sua vida não tinha sentido

E quando a vida deixa de fazer sentido, a única coisa que te guia é a morte. É por isso que Xaver retornou à guerra, que ainda estava longe de terminar.

Poucos meses antes, a Romênia entrou na Grande Guerra como aliada da França e da Rússia. A Transilvânia tornou-se palco de batalhas sangrentas, especialmente na fronteira com a atual Hungria

nessas trincheiras Xaver lutou novamente por meses… até que o inevitável aconteceu.

Alina procura novamente em seu álbum e me mostra um documento em húngaro. Dorothea traduz para mim

É a certidão de óbito do Xaver Sumer.

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No documento eu consigo entender seu nome, sua data de nascimento (descobri que era 9 de fevereiro de 1893), a data de sua morte (26 de setembro de 1917) e na seção “observações”, uma palavra que não parece nada bom. Nada de bom: “öngyilkosság”.

“Öngyilkosság” significa suicídio

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Xaver Sumer, incapaz de suportar o inferno em que sua vida se tornou, esvaziou seu futuro, tirou sua própria vida em uma trincheira na frente húngara.
Ele tinha 24 anos de idade.

Ele foi enterrado em um cemitério militar nos arredores de Oradea (atual província romena de Crisana) com uma simples cruz branca de madeira

Um pouco mais de um ano depois, a Primeira Guerra Mundial chegaria ao fim, deixando 30 milhões de mortos. E dois deles, Emil Muler e Xaver Sumer, descansariam por mais alguns anos a 300 quilômetros um do outro.

Dorothea olha seu relógio. Está ficando tarde. Ela tem que voltar para o hotel e eu devo retornar a Târgu Mures esta manhã. “Vamos embora?”, ele me pergunta

O mais importante ainda está faltando! A primeira pergunta que passou pela minha cabeça quando vi o túmulo do #EmilyXaver, o que todos nós queremos saber! Como eles acabaram enterrados juntos?

Alina olha para mim surpresa e sua risada escapa: “Mas você ainda não sabe? Rapaz, a resposta está na sua frente todo esse tempo.”

Nós ficamos muito tempo na sala de estar de Alina. Dorothea pediu para ira gora. Ela tinha trabalho para fazer no hotel que tinha sido a casa de Emil e eu tinha que pegar um ônibus. Mas eu não poderia sair sem a resposta definitiva que todos nós estamos esperando!
E aí Alina me diz que essa resposta está na minha frente o tempo todo

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A distância de Emil e Xaver e onde foram enterrados pela primeira vez, que eu esqueci de colocar lá em cima

Alina sorri novamente. Eu percebo que toda vez que ele sorri algo muito pequeno dentro de mim se acalma um pouco. Essa mulher é um bálsamo.

A velha olha para cima e faz um gesto em direção à parede à minha frente. Nela, uma grande pintura preside o salão. É um ótimo retrato de seu avô. Hermann Balan.

Hermann Balan, o amigo que descobriu a relação entre Emil e Xaver no ensino médio. Hermann Balan, o culpado de que Herr Muler enviou seu filho a Munique só para afastá-lo de Xaver para sempre

Mas o que ele tem a ver com o túmulo memorial? Qual papel você desempenhou nessa história, Hermann?

O amigo de infância de Emil e Xaver nunca perdoou a dor que ele desencadeara com sua indiscrição. O sentimento de culpa pela morte desumana que ambos sofreram acompanhou-o ao longo de toda a sua vida.

Passou uma década antes que ele pudesse se redimir. Em 1928, a Romênia celebrou o décimo aniversário do armistício e da fundação do Estado Romeno, com a anexação, entre outros territórios, da Transilvânia (incluindo Sighisoara).

Muitas cidades decidiram construir memoriais para comemorar a data e homenagear os soldados que morreram. A prefeitura de Sighisoara foi uma delas.
E a pessoa encarregada de planejar tudo isso foi um alto funcionário que acabara de entrar no consistório chamado Hermann Balan.
Essa foi uma das primeiras obras de Hermann na prefeitura de Sighisoara, onde acabou virando prefeito após a Segunda Guerra Mundial

A primeira coisa que Hermann teve que fazer foi obter permissão das famílias dos mortos para levar os corpos para o novo local.

Não demorou muito para obter a autorização de exumação Emil. Para seu pai, o velho oficial, seria uma grande honra para seu filho descansar em um monumento nacional

E em 1º de dezembro, no Dia Nacional da Romênia, o memorial foi inaugurado em uma cerimônia civil. A cidade inteira foi homenagear seus mortos novamente, com Herr Muler à frente, vestido para a ocasião com todas as suas medalhas.

O que ele não imaginava é que seu filho não estaria sozinho naquela sepultura

Hermann moveu o céu e a terra para localizar o corpo de Xaver em Oradea (por isso ele tinha o atestado de óbito em húngaro). Desde o primeiro momento ele queria enterrá-lo com o homem que amava para que pudessem descansar juntos por toda a eternidade.

Obviamente, ele manteve seu plano em segredo para que ninguém pudesse detê-lo.

Ao ver aquilo, Herr Muler ficou furioso e confrontou Hermann gritando na frente de todos. Como ele tinha sido capaz? Como se atreve ele a manchar a honra de sua família dessa maneira? O homem estava fora de si.

Foi por isso que Hermann o derrubou com um soco, como Xaver fizera com ele dez anos antes.

(sim, é errado bater em um homem velho, mas não me diga que ele não merecia)

“Quinze anos atrás cometi um erro imperdoável”, cuspiu Hermann ao velho oficial. “Eu matei meus melhores amigos muito antes dessa guerra horrível.
E você foi cúmplice disso. Vocês todos eram.”

Os vizinhos de Sighisoara abaixaram as cabeças, envergonhados com as palavras de Hermann:

“É hora de deixar que descansem em paz, juntos como deveriam ter vivido, e como heróis de algo muito mais valioso do que uma guerra.”

A imagem pode conter: atividades ao ar livre

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2 comentários sobre “A surpreendente histórias dos heróis não-só-de-guerra: Emil e Xaver

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