Crítica | Como Nossos Pais

Diretamente do Festival de Berlim e de Gramado, um filme realista e sincero sobre as relações familiares brasileiras.

“Como nossos pais”, quarto longa-metragem da cineasta Laís Bodanzky, cujo roteiro foi escrito, tal como os demais, pelo seu marido Luiz Bolognesi, deixa claro o estilo próprio da artista, com luzes naturais e cenários familiares a todos os espectadores. Seus cortes, frases, diálogos simples e sem grandes explicações, de interpretação pessoal, deram uma proximidade muito grande entre o filme e quem o assiste. O enredo, ainda mais próximo de nossas vivências, conta a história de Rosa (Maria Ribeiro) e sua crise existencial aos 38 anos, envoltas em sua vida social, familiar, profissional e, especialmente, geracional.

– Eu já havia contribuído de alguma forma em roteiros anteriores escritos pelo Luiz, mas é como se eu estivesse realmente estreando como roteirista – diz Laís Bodanzky, em entrevista ao GLOBO. – A contribuição dele, com o ponto de vista masculino na problemática, foi muito importante. Temos a mesma visão de mundo. Ele tem muito respeito pelas personagens femininas, mas foi rico conversar com ele para ter o embate e criar surpresas, fazê-lo passar por uma tomada de consciência, porque acho que ele nunca parou para pensar nesse assunto.

O filme inicia-se em uma típica reunião familiar brasileira: irmãos com seus respectivos parceiros e filhos, juntamente com a mãe para um almoço, reunindo três gerações de uma mesma família – e, para acrescentar ainda mais realismo à cena, acirradas discussões de casais. Logo à primeira vista é evidente um desgaste no casamento de Rosa e Dado (Paulo Vilhena), e uma grande insatisfação da esposa com a profissão do marido, ambientalista, que pouco está em casa e, ao estar, pouco colabora na sustentação emocional e financeira de seu núcleo familiar (composto por ambos e mais duas filhas, Nara e Juliana).

A partir desse ponto nós vemos sucessivos infortúnios acontecendo na vida de Rosa: relação com a mãe deteriorando-se, uma vida em jogo por conta de doença, um marido pouco presente e parceiro, a história da sua paternidade posta em risco, um pai de difícil convivência, paixão momentânea, demissão, suspeitas de traição, dentre diversas outras coisas. O filme faz uma profunda imersão ao contar como Rosa, dramaturga, mãe, filha, esposa e mulher sentiu que não dava conta de tudo, e quais eram as medidas de coragem que precisava tomar para aliviar-se da aflição de ter aberto mão de suas vontades para uma vida que não saiu como o planejado.

Uma frase que me rondou até o fim do filme e que acredito resumir bem a tecla batida ao longo das cenas, é quando Rosa diz para Dado: “‘tá ruim“. Apenas isso. O roteiro nos passa todos os conflitos de sua vida colidindo um com o outro, passando-nos a sensação de angústia e soma de erros e problemas consecutivos. E, ao mesmo tempo, demonstra uma grande força para a protagonista, que persiste e progride apesar dos pesares, que envolvem temas como identidade, sonhos, feminismo, mortalidade, fidelidade, tecnologia dentro dos relacionamentos e companheirismo. Tudo passado de forma muito limpa e honesta, com uma carga emocional mediana, o que foi positivo, pois a obra como um todo tem o poder de fazê-lo imergir na história e associar com sua própria realidade, seja com os diálogos, efeitos das câmeras ou com a atuação.

Um filme excelente para podermos refletir sobre a maneira que guiamos nossa vida, em todos os seus aspectos.

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“Como nossos pais” estréia dia 31 de agosto de 2017 em todos os cinemas do Brasil. Fiquem com o trailer.

 

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