Análise poética: Testamento, de Manuel Bandeira

Olá! Trazendo um tema diferenciado para os fãs de poesia, eu percebi que muitos textos são mal interpretados – ou apenas trazem diferentes visões. Logo, escolhi um poema que gosto bastante para traduzir, facilitar as palavras. Alguns dizem que isso vai ajudar em alguns trabalhos da escola, mas para outros isso pode ser até mesmo curioso. Então, vamos nessa:

Testamento

Manuel Bandeira

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os…
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!… Não foi de jeito…
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde…
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

(29 de janeiro de 1943)
Poesia extraída do livro “Antologia Poética – Manuel Bandeira”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001, pág. 126.

Vamos lá: Devo frisar que essa é a minha interpretação e visão, então procurem compreender.

Primeiro é importante conhecer a biografia do autor. Manuel Bandeira teve uma doença grave, tuberculose, durante toda a sua vida (que não foi a causa de sua morte). Acontece que, com a saúde fraca, ele se privou de muitas coisas, apesar de ter vivido de maneira honrosa, cheio de prêmios, reconhecimentos, viagens, mas ainda sentia que podia e devia fazer mais: e foi essa a ideia do poema.

A priori, no primeiro parágrafo, ele inicia falando de seus sonhos. Acredito que esteja afirmando que isso o fez ser quem é – ou seja, que sonhar com o que poderia fazer o abasteceu em sua escrita. Em seguida ele menciona o mundo que não conheceu, mas não menosprezando o que viu. Afirma que viu terras de suas terras (lugares do Brasil) e outras terras também, outros continentes, mas que o que ficou marcado em seu olhar fatigado (da doença) foram as terras que inventou – aquelas que nunca pôde ir.

Em seguida vemos a tristeza de um homem que não teve a chance de ter um filho seu, que não o teve e se arrependeu, mas que carrega isso no peito como um algo a mais para a sua escrita. Isso o trouxe mais emoção nas escritas, mas é algo que gostaria de ter feito diferente.

A questão profissional é abordada. O seu pai, que o almejava sendo arquiteto, não viu o filho seguir seus planos – já que a saúde lhe faltou, e acabou tornando-se poeta por conta dos infortúnios que lhe ocorreram. Porém, seus versos não são sobre guerra – e em seu tempo era importante ter algo para falar sobre os males do mundo, já que era um orgulho ter sobrevivido. Mas a sua doença também o impediu de ter essa glória, o que o trouxe ainda mais inspiração para escrever.

Por fim, falaremos do título. Testamento. Manuel Bandeira fez uma geral a respeito de sua vida, falando de seus infortúnios, mas mostrando o seu lado bom; ou melhor: lado poeta. E eu o admiro imensamente por ter feito de seus abatimentos palavras lindas – em especial esse texto, um dos que mais gosto. Obrigada!

Anúncios

2 comentários sobre “Análise poética: Testamento, de Manuel Bandeira

Comentem! Vou adorar saber o que acharam!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s