Aconteceu comigo…

… Eu era uma menina tão boa. Tinha boas intenções, uma expressão alegre e uma bagagem de sonhos. Minha infância foi difícil, eu estava em último na lista de beleza das garotas da sala (e me entregavam essa lista quase todos os dias). Eu era a mais feia, a garota distraída que até os professores faziam piada. “Vive no mundo da lua”,  só fica lendo, desenhando, escrevendo. O que vai ser da vida?

Derrubavam minhas coisas no chão, me xingavam, me fizeram ter vergonha de criar um Orkut. “Quantos dentes você tem, quatro?”. Aberração. Mas, por sorte, eu era uma criança: ainda mais infantil que os demais de minha idade. Não ligava pra isso, sequer entendia direito. Admito sofrer mais por isso hoje que antigamente, pois era só assistir um filme que esquecia tudo (até a próxima provocação).  

Quando cresci, que surpresa… Meu cabelo não era mais uma versão de Pulp Fiction mal cortado. Meus dentes, aparelhados, estavam menores, juntos, e mais para trás. Eu comecei a desenvolver meu corpo, menstruar secretamente, e até a usar perfume. Comecei a cuidar e valorizar quem sou: e os outros viram potencial.

Eu fui criança por muito tempo, e por isso virei mulher muito rápido. Com isso, desejos, curiosidades, e um senso de liberdade que não cabia em mim. Tomei decisões ruins. Conheci pessoas péssimas. Pessoas me conheceram de uma forma péssima. De repente eu passei de Fiona para Bettie Page. Vagabunda  (diziam, mas esse era o menos ofensivo dos nomes). 

Coisas mentirosas e machistas sobre mim foram contadas, espalhadas, jogadas nos ares para todos tirarem suas conclusões com apenas fragmentos. Ninguém teve a consideração de perguntar se doeu, se machucou, se minhas lágrimas já estavam secas. Eu era apenas mais uma. E, depois disso, eu desejei ser a garota feia de novo. Queria poder me concentrar no meu livro quando todos ficavam falando de mim bem ao meu lado. Eu nem ouvia! Como? Como podia ignorar o ódio das pessoas dessa forma, descaradamente! Eu sonho, até hoje, com a criança feia e inocente que fui, a amando mais do que qualquer outra fase de minha vida. Ela me deu conteúdo. Me deu coragem. Me deu vontade. 

Hoje em dia eu escrevo. Sobre o machismo, sim. Sobre tristeza, decepção, ódio, sim. Mas escrevo vestindo pele de criança, sonhando. Viro-me de avesso e, de repente, sou a mais bela e solitária pessoa no mundo: feliz com minha inocência. 

Anúncios

Um comentário sobre “Aconteceu comigo…

  1. Existem pessoas más, medíocres e boas. As primeiras são aquelas que são invejosas e as vezes ainda são perversas, desejam o mal para os outros e não se incomodam em ser assim. As segundas são tipo de gente pobre de espirito, sempre na média, as vezes se comportam como as primeiras, mas por incompetência não conseguem se igualar nem nisso. Por outro lado, são também mesquinhas e não conseguem fazer algo que seja bom o suficiente para ser observado. Boa parte das vezes são o “rebanho” que compõe a multidão. As últimas, conseguem perceber a diferença dela para as demais e por isso tem a capacidade de manter-se bem distantes delas. Olham para os outros não com superioridade, mas com condescendência. São empáticas e geralmente também simpáticas. E acima de tudo, são capazes de perdoar porque geralmente as pessoas boas são aquelas que sabem amar. Um texto provocante. Não sei se autoconfidente, mas excelente para se pensar como se reage a uma experiencia da vida… Se usamos para nos fortalecer ou para nos padecer… Abraços

    Curtido por 1 pessoa

Comentem! Vou adorar saber o que acharam!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s