“Eu sou Anastácia Romanov!”

Não é aula, mas é história. Em qualquer ensino médio é cobrado dos alunos que saibam o que foi a Revolução Russa que, para mim, é de longe o meu assunto favorito! Eu passei três anos consecutivos repetindo e repetindo a lenda de Anastácia Romanov para qualquer pessoa que encontrasse, e não é por menos! Pode não ser por conta do Domingo Sagrento, do Socialismo, Bolcheviques ou Mencheviques (apesar de gostar muito de tudo isso), mas com certeza o que mais atraiu minha atenção no assunto foi o Massacre Romanov – um dos mistérios que mais gosto de falar sobre!

Para começar vocês precisam saber que a Rússia, até 1918, o ano que mais vai marcar essa postagem, era czarista, pondo todo o poder nas mãos do Czar Nicolau II. O mesmo teve cinco filhos: Marie, Tatiana, Olga, Alexei e Anastasia, todos marcados pela impressionante beleza da família. As três primeiras, infelizmente, não importarão tanto para a história que vou contar quanto os outros dois. Vamos por partes:

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Alexandra e Nicolau já tinham quatro filhas que não poderiam herdar o trono e pediam a Deus por um herdeiro que, enfim, em 1904, chegou. Foi uma grande alegria durante certo tempo a chegada do menino Alexei – até descobrirem nele uma doença passada geneticamente que poderia comprometer toda a sua vida. O herdeiro era hemofílico.

Hemofilia é uma doença mais popularmente conhecida como “doença do boneco de vidro”, que faz com que até mesmo leves lesões tenham graves consequências, deixando a pessoa mais frágil que a maioria.

Por conta de sua doença o menino passou grande parte da vida em uma cama, muitas vezes em coma. Isso, portanto, não era nenhuma novidade para Alexandra, sua mãe, que era neta da rainha Vitória da Inglaterra, também portadora do gene hemofílico. Por conta disso ela desenvolveu um grande complexo de culpa que só fez ampliar a sua preocupação materna, fazendo-a estar sempre ao lado de seu filho, rezando para haver um milagre que o cure.

Anastácia (ou Anastasia, a depender da tradução), era uma menina muito agitada, vivia pregando peças nos outros, passava muito tempo com o seu pai, era durona e nunca deu muita importância para a aparência, ao contrário de suas irmãs. Mas calma… Falaremos mais de nossa protagonista depois.

Há um personagem de suma importância para vocês entenderem o contexto inteiro que se chamava Rasputin. Era um sujeito estranho, barbudo, dizia-se um religioso e bruxo/feiticeiro durante o dia, e grande frequentador da vida boêmia durante a noite.

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Quando a czarina Alexandra conheceu Rasputin, encheu-se de alegria, afinal ele a havia garantido que curaria o menino. O que aconteceu é que, em um momento o garoto estava péssimo, e no outro houve uma melhora repentina e sem explicação. A partir daí a família Romanov passou a acreditar totalmente na santidade de Rasputin – e foi isso que os encaminhou pro seu desastroso destino.

O povo não sabia sobre a doença de Alexei, o que os levou a estranhar a presença tão assídua de Rasputin no palácio, chegando a acusar Rasputin de ser amante da czarina – o que decerto era falso! A família Romanov era tida como a mais feliz e unida de todas as famílias reais de sua época – o que era algo para se orgulhar!

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Família Romanov em 1906.

Com todos os súditos, tanto quanto os parentes próximos, ministros e figuras de alto cargo, suspeitando e desaprovando a grande influência de Rasputin no palácio (que, como todos sabiam, era frequentemente visto em orgias e bebedeiras), muitos movimentaram-se para exilá-lo mas, novamente, ele foi acobertado pela família real, que prezava a saúde de Alexei.

Insatisfeitos com a situação do palácio – já que afirmavam, e nisso estavam certos, que Rasputin só traria misérias para a família, o reinado, o czarismo e a própria Rússia – o príncipe Félix (a quem Olga amava), juntamente a um deputado e outros dois cavalheiros decidiram armar para o farsante, convidando-o para um jantar e festa que ele facilmente aceitou comparecer ao ser mencionado que determinada mulher a quem ele admirava estaria lá. Mas, claramente, essa mulher sequer estava na cidade, já que a única intenção do príncipe Félix era matá-lo, e assim começa a noite:

Foi colocada uma tremenda dose de cianureto nos bolos que Rasputin comeu, tão quanto as iguarias e bebidas entregues a ele – mas isso não o matou! O médico que preparou o veneno ficou boquiaberto ao ver que Rasputin não havia nem ficado tonto com essas doses que, certamente, deveriam tê-lo matado. Félix, injuriado, saiu do cômodo e buscou um revólver, o qual disparou contra Rasputin, que dessa vez parecia ter morrido. Quando todos saíram para buscar cordas e sacos para o defunto houve uma surpresa: Rasputin havia sumido! Foram encontrá-lo no pátio do castelo, o que os chocou mais ainda. Mesmo envenenado e com uma ferida mortal o infeliz ainda teve forças para arrastar-se! Mas, por fim, o pegaram e jogaram no Rio. Não, ele não morreu afogado. O rio era muito frio (afinal, é a Rússia), fundo e com muita correnteza, e superando novamente expectativas, ele morreu muitas horas depois com hipotermia. E assim foi-se o quase imortal Rasputin.

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Mas, quando todos achavam que a situação iria melhorar, é encontrada uma carta de Rasputin para o czar ditando uma “maldição”: lá ele alertava que pressentia que iria morrer e que, caso quem o matasse fosse alguém comum, nada aconteceria à sua família. Mas, como foi o caso, se fosse alguém da família real nenhum dos Romanov iriam sobreviver. Coincidência, não?

Bom, a família Romanov, em 1918, teve que refugiar-se em uma casa de campo, junto a seus empregados ,por conta de algumas revoltas de seu povo, mas estavam muito acomodados. Porém, em uma madrugada estranha, a família real foi convocada para vestir-se adequadamente e descer para o porão, onde tirariam uma fotografia. É claro que estranharam o pedido, mas o fizeram por ser um pedido da guarda oficial de Moscou. Ao entrarem na sala havia duas cadeiras apenas – em uma delas sentou-se o czar, enquanto na outra sentou-se a czarina com Alexei no colo. As meninas ficaram em pé ao seu lado, aguardando uma pronunciação dos guardas.

Todavia, estes, não ergueram nenhuma máquina fotográfica, e sim um papel. Um deles leu uma carta e, bem no final, foi que o czar Nicolau entendeu: era uma sentença de morte. Quando ele ia levantar para protestar já era tarde: todos levaram diversos tiros em seu corpo. O czar e a czarina morreram logo de cara, mas as crianças estavam todas vestidas por jóias, que protegeu o corpo das balas. O pelotão, já irritado ao pensar que essa situação era sobrenatural, bateu em todos eles com baionetas e, enfim, os levaram para o caminhão. E fim de massacre.

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Mas espera… E quanto ao título? E o mistério por trás da família? Não falaria mais de Anastácia? É aí é que está. Em 2007 foi separado o mito da verdade, e é esse o enfoque dessa matéria.

Durante muito tempo houve esperança de algum dos Romanov ter fugido e estar refugiado, escondido para não cumprir a sua pena. Todos torciam, mas não acreditavam até que, enfim, uma mulher chamada Anna Anderson apareceu em público e anunciou: eu sou Anastácia Romanov! Conseguem imaginar o tumulto que a Rússia se tornou?! Era motivo de alegria para a maioria, para os sonhadores, mas com certeza também era um absurdo para os céticos.

Foi então que começaram a entrevistar essa mulher, questionando o que aconteceu na noite do massacre de verdade. Ela disse que, ao levarem toda a família para o caminhão, dois irmãos chamados Tchaikowski viram que ela ainda respirava e, escondido de todos, a sequestraram e levaram para sua casa.Em meio a isso ela foi estuprada, teve um filho que fora mandando para o orfanato, e foi para a Alemanha, atrás de parentes exilados. Essa mesma mulher, segundo conhecidos, dizem que Anna tem a cabeça um pouco perturbada (provavelmente pelo trauma do massacre) e que é cheia de ferimentos, sobretudo na cabeça e nos braços.

Essa história teve muita repercussão na época (e, inclusive, até hoje), chegando ao ponto de desenvolver dois partidos: os que acreditavam e que repudiavam a história de Anna Anderson. Houve, também, um livro chamado “A Falsa Anastácia” argumentando sobre os prós e contras da história. Mas as coincidências eram inegáveis: além do idioma russo impecável para alguém que viveu na Alemanha, Anna sabia de coisas completamente privadas para a família Real que chegava a assustar os parentes distantes. Ela descrevia com precisão a vida no palácio e qualquer situação em que Anastácia esteve presente, tal como alguns segredos de estado. Ah, sem falar em sua aparência! Ela realmente tinha muitos traços em comum com Anastácia:

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Esse mistério que diz respeito à verdade sobre Anastácia Romanov só teve um fim em 2007, com uma descoberta arqueológica, dez anos depois da animação da Disney sobre a nossa heroína, que no filme sobrevive (apesar de se tratar de um filme onde Rasputin, de fato, era um feiticeiro) e volta ao trono.

O filme nos mostra um final feliz típico da Disney que fez todos os fascinados pela história suspirarem. Era esperança, afinal em 1997 aquilo não tinha uma resposta. Mas, dez anos depois, cientistas encontraram duas ossadas de jovens que não demorou a ser reconhecida geneticamente como Anastácia e Alexie. Eram os dois esqueletos restantes que, posteriormente, foram enterrados corretamente junto ao resto de sua família.

A teoria formada foi que, quando levaram os corpos para o caminhão, resolveram tirar dois e enterrar em outro lugar para que, caso encontrassem os corpos, não os ligassem à família Romanov. E sobre Anna Anderson? Infelizmente não há dúvidas de que ela estava mentindo, mas também há teorias. Uma delas diz que Anna havia sido comprada por um membro da família real que pretendia voltar com o poder do sobrenome Romanov, aproveitando-se da lenda de Anastácia; outra diz que ela queria aproveitar-se da semelhança para ganhar dinheiro e poder; e, a última, diz que ela era uma pobre insana que estava tão obcecada pela lenda que acabou acreditando ser a própria Anastácia. Isso não há como provarmos.

Eu, como de costume, prefiro o conto de fadas, então fecho meus olhos para a informação mais recente e imaginando a pobre Anastácia fugindo, seguindo seu caminho, e rindo de todo esse alvoroço, longe de qualquer problema ou maldade. Onde ela está a salvo com a memória de sua família.

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Fiquem, então, com a música que inspira a todos os sonhadores e adoradores da lenda de Anastácia – seja a real, a fantasiosa ou a sua própria teoria. Obrigada!

 

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7 comentários sobre ““Eu sou Anastácia Romanov!”

  1. Posts históricos são o máximo. Aí a gente percebe como qualquer simples parágrafo ou nota de rodapé dos livros de escola é lotada de riqueza, que dá filmes, séries e livros.

    Nossa, uns monarcas eram alienados com o mundo a sua volta. Lembrei da Antonieta, ouvindo que o povo não tinha pão e respondendo para eles então comerem brioches. Por essas e outras que, apesar de raramente trazerem benéficios a população, ainda assim eu não consigo ser contra revoluções.

    Eu acho que já li uma versão dessa onde as balas ricocheteavam porque as meninas tinha engolido uns diamantes.

    Curtido por 1 pessoa

    • Eu amo história! Principalmente quanto a monarquia. Sou super fã da monarquia literária, apesar de saber que não daria certo. Amo demais a imagem que eles passam. E revoluções são outra paixão minha. Adoro muito essas versões, apesar de não achar que elas tenham mesmo engolido diamantes hahaha provavelmente apenas usavam

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